I. Efeito tardio
Assim como um efeito tardio de um anti-depressivo, chegou a mim como quem chega depois da festa. Calada, esperando que algo aconteça, sem ninguém pra acontecer. Marcada apenas por um colar de ouro sem luz, sem fósforos para acender o cigarro. Não, eu não fumo. Apenas vejo a fumaça entrar pelos meus olhos depois de escrever. Colocou-se à minha esquerda e perguntou: tem fogo? Olhei-a como quem olha a placa de ônibus fincada no passeio... sabia que estava ali mas não precisava olhar pra saber.
Há anos não a via. Anos que pareciam séculos, mas quando ela apareceu percebi que pareciam horas. Olá, chocarreiro nauseante[1], disse ela lembrando-se de um velho poema que eu escrevera há uns dez anos, ou seriam dez dias? E aí? Tem fogo ou não? Você sabe que não... eu não fumo... Olhou para as minhas narinas e disse que eu parecia um idiota vestido de terno. Que eu não me parecia nada com aquele poeta do fim dos anos noventa que nada tinha a perder, a não ser seus próprios escritos.
Virei de costas e perguntei o que ela queria depois daquele tempo de ausência. Nada. Foi coincidência. Só vim comprar jornal e vi você aqui. Parado. Olhando pro nada. Sem brilho nos olhos e com vento na testa. Você está mais careca. Foda-se.
Andei e parei num boteco pé-sujo perto da banca de jornal. Pedi um café e percebi seu perfume atrás de mim. Não. Não foi coincidência. Ela tentava falar algo quando eu disse: quer um café também ou ainda prefere um uísque às sete horas da manhã? Um café. Beberiquei o café quente que queimou meus lábios. Pedi um pão-de-queijo. Não dissemos nada.
Enfim consegui olhar pro seu rosto. Eu sabia que aquilo iria acontecer. Ainda tinha traços delicados, mas com um quê de primitiva. Tremi ao ver seus olhos olhando pros meus e terminei de tomar meu café. Engoli o pão de queijo de uma vez. Paguei o meu e o dela.
Saí do boteco e a puxei pelos braços. Minha vontade de meter a mão na cara dela foi tanta que a soltei e segurei minha mão direita. Ela me olhou. Não consegui perceber expressão alguma em seus olhos.
Vamos pra casa...
[1] Triste truão
Sou
Toada de um só acorde;
Tristèsse do tempo;
Taumaturgo sem milagre;
Espécie de vento
Ou de brisa catadora
De risos, aplausos,
Coroas.
Sou todo pilhérias,
Sou todo momices,
Porém insulado
No próprio escárnio.
Sou sombra
Dissimulada.
Tristeza metamorfoseada
Em Saltimbanco,
Chocarreiro nauseante.
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