III. Seco
Ela engoliu seco. Afinal eu sabia o motivo de sua ida. Mentira pra mim e pra si mesma durante os últimos anos de casamento. Não. Ela não me amava. Não sabia nem o que era.
Peguei uma garrafa de uísque nacional e coloquei num copo de geléia. Ofereci e ela bebeu de uma vez. O hábito era o mesmo. Uísque de manhã. Nos quatro últimos meses de casamento ela gastava mais com uísque do que com cigarro. “Chocarreiro nauseante”, disse e riu pelo nariz, como quem acha um fundinho de graça numa piada velha.
Peguei meu casaco de couro preto e saí, sem ela. Desci as escadas do prédio rapidamente e saí caminhando passos de avestruz pela rua. O hálito matinal da avenida principal de Juiz de Fora me causou mal estar.
Entrei no prédio, no elevador, na minha sala. Sentei atrás da minha mesa e peguei o porta-retrato dentro da gaveta. Segurei-o firme tentando, quem sabe, quebrar o vidro e ferir minha mão só pra sentir pena de mim mesmo. Não consegui. Joguei-o na parede e o safado caiu no chão sem nenhum arranhão. Levantei e vi o rosto de Berenice. Olhava pra mim e dali de cima eu percebia que seu olhar era gélido, apesar de tentar fazer uma cara de amável com a cabeça ligeiramente virada pra esquerda. Pisei com força no porta-retrato, que finalmente ele se espatifou.
Machado chegou assustado. Que barulho é esse, cara? Quando viu os pedaços de vidro no chão perguntou meio que afirmando: ela voltou, né? Como é que você sabe? É a primeira vez que você tira a foto da gaveta desde que ela foi embora, nunca nem tocou no assunto depois da primeira semana da partida da Berê. É. Ela voltou. E aí, pra onde ela tinha ido? Cansou...
Agachei e catei os pedaços de vidro no chão. Um por um e finalmente me feri, mas não senti nenhuma pena de mim mesmo, pelo contrário, me achei um idiota. Peguei a foto e coloquei de volta na gaveta. Tranquei com chave. Levantei, fui até a sala do Machado e peguei um café morno e fraco. Horrível. Cuspi pela janela e ouvi meu sócio dizer “Ô, e se essa merda cai na cabeça de alguém e esse alguém nos processa?”
Nossa firma de publicidade ia de mal a pior. No último mês conseguimos um contrato apenas. Fizemos um jinglezinho fajuto pra uma candidata a vereadora de Goianá, uma cidadezinha perto daqui. A coitada teve trinta e um votos. Só a família deve ter votado na infeliz. Também, com um jingle daquele.
- Ô, Saulo... olha esse sangue aí pingando no meu chão. Vai enfaixar isso.
Larguei o copo com marca de sangue na mesa do Machado e saí do escritório. Fui até a farmácia que fica embaixo do prédio e pedi pra Ana me fazer um curativo. Antes do pedido já foi me perguntando se fora meu antidepressivo, meu anti-ácido ou meu analgésico que tinha acabado. Eu só entrava ali pra comprar essas três caixas. Não ia ao psiquiatra pedir receita pro antideprê... comprava na surdina com a Ana, que depois dava um jeito com a fiscalização, por ser farmacêutica ela não tinha muito problema com isso, eu acho.
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