ATENÇÃO

As personagens deste livro, assim como sua trama, são totalmente fictícias e não representam, em absoluto, nenhuma pessoa real.

domingo, 10 de julho de 2011

CAPÍTULO IX


IX. Uísque e cerveja

A garrafa de uísque nacional se foi, mas meus pensamentos na Berê não. Sim, eu tomei o que restava na garrafa. Enquanto pensava em toda a minha vida com minha ex, desci quase 700 ml de uísque de segunda. Deu pra fazer um bom estrago.
Dormi até às duas da tarde e achei estranho o telefone não ter tocado. Aí me lembrei que eu não tinha pago a conta. Pelo menos pra isso a falta de grana serviu: me deixou dormir.
Levantei-me com a cabeça mais pesada que uma bigorna. Senti-me, sem exageros, como um judeu macérrimo carregando aquele peso nos ombros sem saber pra quê, sem querer fazer. Minha cabeça doía, mas a ressaca moral me destruía. Eu passara boa parte da madrugada pensando na Berenice, por isso a imagem dela não saía de mim.
Trabalhar... eu precisava trabalhar.
Sem chance...
Eu precisava curar minha ressaca e, acredite, só há uma maneira de se sentir melhor quando se está de ressaca: bebendo mais. Não adianta abacaxi, suco de couve ou de boldo, café forte, três goladas de água de cabeça pra baixo (ou isso é pra soluço?), enfim. Só o álcool poderia me ajudar.
E Berenice? Por onde andaria? Onde dormiu? Ela estava de volta à cidade, mas eu não fazia ideia por onde ela andava. E pra ser sincero, percebi no meio daquela ressaca infernal que já estava mais do que na hora de esquecê-la. Passei mais de um ano esperando-a voltar e quando isso finalmente havia acontecido, senti vontade de ela nunca ter retornado.
Álcool, eu precisava de mais.
Dois engovs antes. Eu sei que não resolveria, mas pelo menos teria uma desculpa pra ir à farmácia.

Ana me recebeu com uma cara de preocupação. Era fácil perceber que o uísque havia me destruído. “Mulher apaixonada e pé na bunda rimam com uísque de segunda”, já dizia uma canção dos Bêbados Habilidosos! E uísque de segunda rima com uma dor de cabeça profunda e dentro da cabeça pensamentos numa vagabunda. Horrível! Não sei o que é pior: essas rimas toscas ou minha situação ali na frente da Ana. Engov, antiácido, analgésico e mais uma caixa do anti-depressivo, Ana, pelo amor que você tenha a Zeus.
— Saulo, não se acabe dessa maneira. Você não merece isso.
— Ah, Ana... não foi culpa minha, o uísque que era vagabundo demais.
— Se você precisar de alguma coisa, não hesite em me procurar, tá? Eu quero seu bem, Saulo. Não se acabe por causa de uma mulher que foi irresponsável com você.
— Eu sei me cuidar... Relaxa.
— Não parece, Saulo... Não parece.
Não sei por que, mas só de ver o rosto da Ana, já me fazia sentir um pouco melhor. Não chegava a curar minha ressaca, longe disso, mas me fazia sentir mais gente. Com ela eu percebia de novo que eu era homem, coisa que eu havia me esquecido desde a partida da Berenice.
— Vou beber pra curar minha ressaca, Ana. Me acompanha?
— Beber? Não é possível...
— Opa... com uma condição... não julgue minha condição de bêbado, pode ser?
— Preciso resolver umas coisas aqui na farmácia, mas daqui a uma hora estarei liberada. Onde te encontro?
— Estarei no Bar do Afonso. Te espero lá.

Peguei um táxi. Sentei numa mesa no fim do bar e pedi uma Brahma. Primeiro gole. Zeus... desceu maravilhosamente bem, esplendidamente bem. Cerveja gelada descendo pela minha garganta é como se fosse, para os cristãos, a chegada de Jesus na Terra. Algo único. Mas pra eles isso não acontece. Pra mim acontece quando eu quiser. É só eu ter pelo menos alguns reais dentro da minha carteira velha de couro. É só ter alguns trocados no bolso da minha calça jeans desbotada. Deus está nas pequenas coisas, já dizia um ditado. Pra mim ele está no gargalo de uma garrafa de cerveja. É tudo o que eu preciso. Uma cerveja gelada num dia gelado. Algo melhor? Bem, só se a cerveja for servida em outro recipiente que não o copo. O corpo de uma mulher por, exemplo. O corpo da Ana. Sim, Ana parecia um copo pra servir cerveja. Berenice um copo pra servir uísque. Mas uísque de segunda. Vagabundo. Daqueles que te dá dor de cabeça. Assim como a que eu estou hoje. De repente por isso estou tomando cerveja. Por isso chamei Ana pra beber comigo. Cerveja, uísque, Ana, Berenice... e eu aqui, sozinho, sentado numa mesa escondida no fundo de um bar. Bebendo... bebendo cerveja.
— Garçom, me traz um uísque de segunda.

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