IV. Curativo
Ana me fez um curativo com suas mãos finas e pequenas. Eu conheci bem aquelas mãos. Um mês depois da partida da Berê, foi ela que me consolou. Rosto pequeno, delicado, com os cabelos bem finos e escorridos, me fez até pensar que eu conseguiria esquecer. Quem sabe uma farmacêutica não faria um curativo nas marcas feitas por aquela? Mas não... o máximo que ela conseguira foi soprar a ferida.
- Ela voltou, não foi?
- Foi.
Saí da farmácia e voltei pro escritório. Entrei na sala de Machado e o vi ao telefone aos gritos com o único vendedor externo da firma. Mal dava pra entender suas palavras, tamanha era a força que fazia pra falar. Sentei.
O suor embaixo do braço e a oleosidade dos cabelos davam a Machado um aspecto repugnante, bem diferente daquele Machado dos áureos tempos da faculdade de Publicidade que conquistava as calouras só no olho.
Foi assim que eu conheci o Machado. Publicidade e Marketing. Vamos ser ricos, Saulo. Faremos campanhas pras maiores marcas do país... Pensa bem: Machado & Ipiranga Criações... ah... vamos arrebentar, moleque... e aí... chuva de mulher!
Peguei-me fazendo o som do riso da Berenice que sai pelo nariz. E comecei a imaginá-la saindo do meu nariz bem devagar como um muco endurecido. E então eu começava a espirrar pra ver se conseguia tirá-la dali, mas nada... Ela agarrava com força nos pêlos da minha narina e ficava fazendo força pra não escorregar.
- Acorda aí, moleque. Vamos trabalhar. E o machucado? O Raimundo está quase fechando negócio com uma empresa de cosméticos, daquelas que têm revendedoras que vão de porta em porta. Sabe?
- Sei.
Levantei e peguei outro café. Esqueci da merda que estava aquilo mas pra não ter que cuspir, engoli e segurei pra não voltar. Fui até a minha sala. E num impulso disquei pra minha casa. Ninguém atendeu.
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