VI. Apocalipse interior
Desci de novo aquelas escadas imundas de um prédio construído na década de sessenta. Ainda havia aquelas luminárias estranhas no teto, a parede recoberta de madeira e um cheiro que me lembrava muito o apartamento de meus avós.
Parei em frente ao prédio e fiquei, por um tempo, olhando o movimento... Sempre achei estranho parar e ver as pessoas passarem. É como se o mundo girasse e você, só você, fosse a platéia, vendo um espetáculo morto, empoeirado e cheio de histórias repetidas.
Encostei na quina do portão do prédio, acho que só pra sentir dor na costas, e fechei os olhos pra não ter que ver aquele espetáculo caquético, contado e recontado mais de um milhão de vezes pelo mesmo velho desdentado e cego que só quer te convencer que a vida é feita de decepções e desolações.
Chorei e parei. Tirei do bolso uma conta de luz. Do outro bolso uma caneta. E, depois de mais de um ano, escrevi um poema. Sem forma, é verdade, mas escrevi. Pútrido, sim, mas escrevi. Com um título piegas, mas escrevi[2].
[2] Apocalipse Interior
Começa com um estranho tremor nas pálpebras
que se estende ao olho inteiro.
Então a pressão nas retinas
quase esmaga o globo ocular.
Um líquido invisível sobe à garganta
e a náusea toma conta do cérebro.
Depois vem o vômito,
por saber a verdade.
A verdade sempre dói, meu caro
- já dizia meu pop filósofo favorito.
A verdade corrói a essência humana
como a ferrugem ao aço,
como o cupim à madeira de lei.
Se fores forte, a raiva tomará conta da náusea
e sentirás vontade de partir o mundo em dois.
Se fores fraco, deitarás em posição fetal e tremerás...
O ideal é usar o vômito como essência para a raiva,
como motivo para a fúria
e então pode-se destruir a verdade,
seja ela quem for.
Destruir a verdade dentro de ti,
Pois fora, amigo, a verdade é imortal.
Ela te enterrará quando morto ou vivo.
Porém, ao menos em ti,
Ela estará oculta, estancada.
Seu cheiro de sangue morto, de menstruação,
Continuará a imperar em tuas vísceras,
Mas ao menos não te devorará como
O verme que devora o defunto.
Por isso, faça com que teus quatro cavaleiros
Sejam aliados de teu mundo
E não da megera verdade,
Da puta dos homens,
Da virgem dos coitados...
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