VII. Beirando a loucura
Comecei a andar e a pensar na minha vida. Tinha 33 anos e não havia conquistado nada do que eu queria.
Andei sem rumo e, quando percebi, minhas pernas me levaram até ao meu apartamento. Achei estranho, mas não deveria. Esse era o único trajeto que eu fazia todo dia. Casa, escritório. Escritório, casa.
Subi as escadas com um passo tímido, quase trôpego. Abri a porta e como num ensejo senti o perfume da Berê.
Com pressa, corri até a cozinha, quartos, banheiro e mesmo sabendo que ela não estava ali, gritei seu nome. Parei. Estranhei minha própria voz e confesso que até agora não sei se gritei Berenice ou Ana... E, como se fosse um sonho que me pega desprevenido, cantei versos estranhos[1] que saíram como vômito seco, mas ensangüentado.
Sentei no sofá da sala, peguei a garrafa de uísque nacional e dormi.
Dormi como um anjogado aos fúnebres precipícios de Hades.
[1] Chorei meu revés
Beirando a loucura,
BerAna a loucura,
Embriaguei-me com seus cabelos
dourados e lisos,
Castanhos e cacheados.
Chorei meu revés
E curei minha fé com lágrima.
Do sal ao doce,
do mel ao fel,
caí em agonia e
sem maestria,
chorei meu revés.
Chorei meu revés...
Beirando a loucura,
BerAna a loucura.
Nenhum comentário:
Postar um comentário