ATENÇÃO

As personagens deste livro, assim como sua trama, são totalmente fictícias e não representam, em absoluto, nenhuma pessoa real.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

CAPÍTULO II

II. Cansada

-          Onde estava?
-          Cansada...
-          De que?
-          Vai saber...
-          Sei... De mim.
-          Não começa com suas crises de perseguição, ainda tem isso? Que coisa...
-          Coisa o quê... sou assim por sua causa e você sabe bem disso. Voltou por quê?
-          Cansei...
-          De que?
-          De ficar assim, vagando sem rumo...
-          Foi pra onde?
-          Por aí.
-          Sozinha?
-          Tem fósforo?
-          Eu não fumo, ô porra.
-          Às vezes sozinha, às vezes com alguém...
-          Alguém quem?
-          Vários alguéns. Não tem fósforo nem pra acender o fogão?
-          Vendi o fogão.
-          Vendeu o fogão que a vovó deu de casamento. Porra, o que eu vou dizer pra ela.
-          Comece explicando que você sumiu por um ano e três meses e seu marido só ficou com um bilhete escrito “Cansei. Fui embora.”
-          E isso é motivo pra vender o fogão? Não preciso dizer isso a ela. Você já deve ter contado.
-          É...
-          O que você disse a eles?
-          Que você cansou. Não foi isso?
-          Foi... mas só disse isso? Não inventou nada? Você sempre inventa...
-          Mudei...
-          Mudou, como?
-          Mudei, porra. Não invento mais, não escrevo mais, não leio mais...
-          Não escreve mais?
-          Não...
-          Por quê?
-          Pelo mesmo motivo que você foi embora...
-          Cansou? Mas de que?
-          Da mesma coisa que você...
-          De que?
-          De mentir...

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