II. Cansada
- Onde estava?
- Cansada...
- De que?
- Vai saber...
- Sei... De mim.
- Não começa com suas crises de perseguição, ainda tem isso? Que coisa...
- Coisa o quê... sou assim por sua causa e você sabe bem disso. Voltou por quê?
- Cansei...
- De que?
- De ficar assim, vagando sem rumo...
- Foi pra onde?
- Por aí.
- Sozinha?
- Tem fósforo?
- Eu não fumo, ô porra.
- Às vezes sozinha, às vezes com alguém...
- Alguém quem?
- Vários alguéns. Não tem fósforo nem pra acender o fogão?
- Vendi o fogão.
- Vendeu o fogão que a vovó deu de casamento. Porra, o que eu vou dizer pra ela.
- Comece explicando que você sumiu por um ano e três meses e seu marido só ficou com um bilhete escrito “Cansei. Fui embora.”
- E isso é motivo pra vender o fogão? Não preciso dizer isso a ela. Você já deve ter contado.
- É...
- O que você disse a eles?
- Que você cansou. Não foi isso?
- Foi... mas só disse isso? Não inventou nada? Você sempre inventa...
- Mudei...
- Mudou, como?
- Mudei, porra. Não invento mais, não escrevo mais, não leio mais...
- Não escreve mais?
- Não...
- Por quê?
- Pelo mesmo motivo que você foi embora...
- Cansou? Mas de que?
- Da mesma coisa que você...
- De que?
- De mentir...
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