VIII. A louca
Acordei às quatro da manhã. A garrafa de uísque nacional no chão, fechada. Eu não havia bebido uma gota sequer, adormeci antes. Levantei-me, fui até o banheiro. Urinei e não dei descarga como de costume. Voltei à sala, agachei-me, peguei a garrafa de uísque barato, abri e dei uma golada daquelas que anestesiam a laringe. Foda. Liguei a TV num canal de compras e fiquei ali na frente sem prestar atenção. Pensava apenas na Berenice. Na época em que pensei que fôssemos felizes. Na época em que algo fazia sentido. Na única época em que senti um sopro de felicidade na nuca. Enquanto as lembranças dos mortos vinham, eu secava a garrafa. Peguei uns quatro comprimidos de antidepressivo e os engoli com outra boa golada da bebida.
Berenice. Eu tinha 22 anos, ela 21. Estava me formando em Publicidade e Marketing, ela em Sociologia. Era fevereiro. Show de uma banda de rock alternativo na praça central da Universidade. Cerveja. Cigarro. Maconha. Berê dançava como se o mundo não existisse. Colocava as duas mãos entre os cabelos cacheados, fechava os olhos e, como se estivesse em transe, sentia a música penetrá-la. Era assim que ela costumava dizer. Algumas garotas olhavam e riam do jeito que ela dançava. Debochavam, mas ela não se importava. Queria apenas estar ali. Eu, cabeludo, ostentava um cavanhaque meio cafajeste, meio misterioso. Vendo-a dançar senti-me bem. Muito bem. Perguntei a Machado quem era aquela garota. A louca? Não chegue perto, cara. Ela é louca. Sério. Dizem que uma vez ela mordeu o mamilo de um cara na hora da foda e arrancou. Muito doida. Fica longe! Não fiquei longe. Na verdade, isso me fez aproximar mais dela. Eu estava cansado da mesmice das garotas superficiais, eram todas as mesmas, mudavam apenas na aparência, e mesmo assim, isso nem sempre acontecia. Berê era diferente. Misteriosa. Confiante e alheia à opinião fútil e enraizada da maioria. Dancei ao seu lado. Perguntei seu nome. Pra que você quer saber? Isso importa? Não, não importava, mas mesmo assim eu disse: meu nome é Saulo. Publicidade e Marketing. “Então você quer entupir a cabeça das pessoas com frases no imperativo, pra que elas continuem comprando coisas desnecessárias, mas que nunca conseguiriam viver sem?” Filosofia? – arrisquei. Não, Sociologia. E o nome? Pra quê?
A partir daquele dia sempre nos encontrávamos no refeitório, nas praças ou no estacionamento da Universidade. Ela tinha um Fusca vinho caindo aos pedaços e me dava carona pra casa sempre que possível. Ela ria das coisas que as pessoas me contavam sobre ela. “Quando não seguimos os estereótipos, as pessoas criam histórias pra provar a elas mesmas que os diferentes são loucos, Saulo. Mas a história do mamilo é verdade!” E ria com uma vontade e num volume tão alto que eu nunca soube se ela ria da mentira que estava contando ou porque se lembrou de algo que realmente aconteceu.
Nosso primeiro beijo foi em outra festa no campus. Ela dançava daquela maneira estranha e me beijava. Dançava com as costas encostadas no meu peito, virava o pescoço e me beijava. Era esplêndido, mágico. É claro que meu estado alcoólico contribuiu pra achar tudo diferente, tudo especial. Mas no fundo foi mesmo. A partir dali, Berê passou a ser pra mim algo que eu não poderia viver sem. Completamente apaixonados, éramos inseparáveis e foram mais de dez meses assim. Até que um dia me percebi instalado no quarto da república que ela morava. Levei pouca coisa: meu violão, discos, livros e roupas. Mudei minha vida sem perceber, eu era agora parte de Berenice e isso me confortava. As coisas faziam sentido, a vida fazia sentido. Eu não precisava pensar se eu tinha alguma missão no mundo. Não precisava pensar qual o motivo da minha existência. Pra quê? Eu tinha a Berenice e isso me bastava. Dependência psicológica e existencial. É quase uma doença, mas eu não queria ser curado, queria estar infectado, mais e mais.
Assim que nos formamos, comecei a trabalhar numa pequena agência de publicidade de um amigo de um primo. Não ganhava bem, mas quando Berê se formou e passou no concurso da prefeitura, nossa renda era mais do que suficiente pra alugarmos um pequeno apartamento no centro da cidade. Vivíamos bem, afinal nossas necessidades eram poucas. Nossa diversão era fazer amor nas horas livres e, acredite, ela era realmente louca na cama. Nunca chegou a arrancar nenhum dos meus dois mamilos, mas em compensação, fazia e falava coisas que eu nunca poderia imaginar onde ela tinha aprendido. Bebíamos toda noite e quando o uísque a entorpecia, ela adormecia e eu aproveitava para escrever meus contos e meus poemas.
Eu sonhava em ser escritor. Na verdade, esse sempre foi meu sonho. Eu enviava, constante e insistentemente, meus textos pra revistas especializadas em literatura. Um ou outro escrito era publicado. Quase todas as vezes, na sessão de literatura marginal. O que me deixava orgulhoso, afinal eu sempre me esquivei da literatura padronizada, acadêmica e cheia de formas. No entanto, nunca consegui publicar um livro. As editoras recusavam meus escritos e isso me deixava frustrado. Mas eu tinha a Berenice, por isso seguia em frente e não me deixava abalar.
Nossa vida se baseava em álcool, trabalho e sexo. Eu não queria mais nada.
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